#NeuroTraduz: a tal Doença de Alzheimer
- 31 de jul. de 2017
- 6 min de leitura
Hoje vamos conhecer um pouco mais sobre essa doença de nome complicado e que aparenta ser cheia de mistérios.

Mas antes, uma observação sobre o tal esquecimento. Queixa extremamente comum no consultório do Neurologista. É bastante necessário e útil levar ao neurologista o máximo de informações sobre o esquecimento. Mesmo que o paciente tenha condições de fornecer informações sobre sua saúde, esse é um tipo de consulta que merece a presença de um acompanhante – preferencialmente alguém que more na mesma casa. Você vai ver, mais abaixo, que ter problemas de memória não é sinônimo de ter Doença de Alzheimer. Ainda bem. Então não sofra em casa sozinho, procure um Neurologista que possa avaliar o seu caso em específico. Certo? Assim tudo fica melhor.
Mas vamos lá! #Neurotraduz Doença de Alzheimer? Sim, aquela com um nome de alemão. Mas por quê? Na neurologia (e medicina em geral), principalmente lá na época mais antiga, era comum que a pessoa que descreveu determinada doença emprestasse seu sobrenome para a nomear. E assim, ficamos com os tais “epônimos”, que é como se chamam os nomes de doenças atribuídos a um determinado pesquisador.
Aliás, é bom notar que o correto é Doença de Alzheimer ou Demência de Alzheimer. A frase “Mal de Alzheimer” – de uso errado - parece ter vindo de uma tradução errada para uma palavra em francês que na verdade significa doença, mesmo (“maladie”).
Esquecimento, demências... isso tudo gera muito medo e primeiro vamos falar de algo útil para todos: prevenção!
Foi publicado, agora em 2017, em uma revista importante de medicina e neurologia (The Lancet), a seguinte colocação: “1 em cada 3 casos de demência poderia ser prevenido na abordagem de nove modos de estilo de vida”. Puxa vida, isso é uma coisa fantástica! Por muito tempo, a medicina focou bastante na busca de desenvolvimento de medicações para prevenir e curar as demências. Mas também não podemos esquecer as medidas preventivas.
Essa comissão que publicou o estudo identificou nove fatores de risco na vida do jovem, meia-idade e idoso que aumentam o risco de desenvolver a demência.
Aumentando a educação no início da vida, no jovem, e também já abordado perdas auditivas, hipertensão arterial e obesidade na meia idade, a incidência de demências poderia ser reduzida em até 20%.
No idoso, parar de fumar, tratar depressão, aumentar atividade física, aumentar contato social e melhorar o manejo do diabetes pode reduzir a demência em mais 15%.
Bom, tudo isso é aquilo que sempre ouvimos no consultório médico. A questão é, você está cuidando do todo da sua saúde? Estamos cada vez mais descobrindo que as demências são muito mais um resultado de diversos insultos ao cérebro, acentuados ou desencadeados por vários fatores. Então, converse com seu médico sobre suas outras atividades, doenças e tratamentos. Ah, aliás, é por isso bastante importante levar na consulta as receitas ou nomes de medicamentos em uso, mesmo aqueles para outras doenças.
Um pouquinho da história dessa doença
Bom, o Dr Alois Alzheimer nasceu em 1864, na Alemanha. Dedicava-se aos estudos das doenças neurológicas quando, desde 1901, cuidou de uma paciente de 51 anos que apresentava perda de memória recente e alterações comportamentais – o caso fascinou o Dr Alois e tornou-se emblemático. Quando a paciente veio a falecer, na autópsia, o Dr Alzheimer identificou várias condições anormais. Eram elas: emaranhados neurofibrilares e placas neuríticas. Estes achados eram distintos o suficiente para serem considerados um diagnóstico de demência senil (que depois veio a ser conhecida como Doença de Alzheimer).
Mas o que é, na prática, a Doença de Alzheimer? Existem outros problemas além do esquecimento?
A Doença de Alzheimer (DA) é uma doença cerebral progressiva relacionada à idade que se desenvolve ao longo de um período de anos.
Inicialmente, as pessoas experimentam perda de memória e desorientação transitória, que podem ser confundidas com os tipos de mudanças de memória às vezes associadas ao envelhecimento normal.
No entanto, além do famoso problema da memória, os sintomas da DA levam gradualmente a mudanças comportamentais e de personalidade. Um declínio acentuado também ocorre nas habilidades cognitivas, como a tomada de decisões e habilidades linguísticas. Dificuldade de planejamento. Passa também a ter problemas em reconhecer familiares e amigos. DA, em última análise, leva a uma grave perda de função mental. Essas perdas estão relacionadas à perda das conexões entre certos neurônios no cérebro e a eventual morte destes neurônios.
DA é parte do grupo de distúrbios chamados demências que são caracterizados por problemas cognitivos e comportamentais - combinados. É a causa mais comum de demência entre as pessoas com 65 anos de idade ou mais.
Como é feito o diagnóstico da Doença de Alzheimer?
Quanto mais cedo se procura o médico com queixas de memória, melhor. Fica mais fácil de identificarmos possíveis causas e, com sorte, soluções para problemas potencialmente reversíveis. É necessário descartar outras condições tratáveis, como por exemplo depressão, infeções, luto, deficiências hormonais – todas estas, entre outras – que podem vir a trazer sintomas parecidos com a Doença de Alzheimer.
Por mais pesado que o diagnóstico de uma demência seja para qualquer pessoa, é importante oferecer ao paciente e seus cuidadores uma explicação para os sintomas, removendo mitos e incertezas para ajudar a fazer um ajuste gradual. Ter conhecimento precoce desta doença também pode permitir que o paciente organize planos e planeje estratégias para seu futuro.
Aliás, assim como nem todo esquecimento = Alzheimer, também nem toda demência = Alzheimer. No Brasil, temos uma quantidade grande, infelizmente, de pessoas que também apresenta Demência Vascular. Esta é uma demência relacionada com hipertensão arterial, diabetes, AVCs. Além de outros tipo de demência que podem ser diagnosticados – o que muda é a forma de evolução e as formas de tratamento, então há uma importância grande na distinção. E quando se procura o médico mais cedo, fica mais fácil de fazer isso.
Ouvi dizer que a Doença de Alzheimer não tem cura, então por que usamos medicações?
Realmente, atualmente não dispomos de tratamentos que possam curar a Doença de Alzheimer (e nem habitualmente outras demências). De uma maneira geral, existem medicações que podem aliviar os sintomas em alguns pacientes. O tratamento farmacológico é bastante importante, mas não deve ser a única base dos cuidados. Atividades e suporte devem ser adaptados para ajudar na vida do paciente com DA. Mais abaixo vamos falar um pouco melhor sobre estas outras medidas importantíssimas.
Em termos de medicações, a linha de tratamento inicial inclui os inibidores da colinesterase (donepezila, rivastigmina e galantamina). Eles ajudam a evitar que haja a quebra da substância chamada acetilcolina, pois ela já está em falta nos pacientes com DA. Os três medicamentos funcionam de forma parecida, mas apresentam perfis de efeitos colaterais que podem variar e se adaptar melhor a cada paciente de forma diferente. Também existe a mematina, medicação que diminui os efeitos tóxicos do excesso da substância glutamato, que está, neste caso, em excesso no cérebro dos pacientes.
As pessoas em tratamento podem apresentar melhora na ansiedade, motivação, memória e concentração e nos cuidados de vida diária. Também dispomos de outras medicações que podem ser combinadas a estas, como medicações mais específicas para o comportamento, que devem ser prescritas conforme a necessidade.
Ah, vale lembrar que os efeitos positivos destas medicações só se aplicam aos pacientes com quadros demenciais, pacientes com esquecimentos e problemas de atenção que não possuem quadro verdadeiramente demencial não se beneficiam destas medicações.
O que pode ajudar no cuidado do paciente com demência?
- Estímulos cognitivos, como resolver quebra-cabeças, palavras cruzadas, discussão de assuntos atuais.
- Criar um livreto de “história da vida” – com ajuda de um cuidador, o paciente pode organizar suas memórias por escrito.
- Criar uma rotina traz segurança ao paciente, em um ambiente relaxado, onde ele é encorajado e não criticado.
- Para ajudar na comunicação, lembre-se que existem outros fatores além da conversa em si. Cuide com barulhos de fundo, como rádio, televisão, que podem atrapalhar o entendimento.
- Ao oferecer opções para o paciente, seja seletivo e aguarde a manifestação da vontade do mesmo antes de oferecer a próxima opção. “Você quer arroz?” espere a resposta. “Você quer feijão?” espere a resposta. Etc.
- Tente manter a calma e procure entender o que o paciente está falando, sem terminar a frase por ele. Evite falar com ele como se fosse uma criança. As repetições de histórias e perguntas são inevitáveis, procure aceitar com paciência.
- Manter-se o mais ativo possível – fisicamente, mentalmente e socialmente – o que tende a melhorar a memória e auto-estima. Por exemplo: ajudar com o jardim, com as compras, arrumar a mesa...
- Ajudas para memória: pode ser útil colocar na porta de armários uma foto do que está guardado ali, como pratos e copos na cozinha. Uma placa indicando o banheiro, por exemplo. Isto estimula a memória do paciente e talvez o ajude a manter mais independência.
- Tentar manter uma alimentação saudável – conversar com seu médico em caso do paciente apresentar dificuldade na alimentação, para que isso possa ser abordado.
- Lembre-se que você não está sozinho. Converse com amigos, familiares sobre suas preocupações. Também escolha um médico com quem você possa contar.

































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